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Sandra
Kaffka
Permanece
fiel à xilogravura, o veículo mais remoto de transposição
de imagens. A superfície orgânica da madeira empregada cede
à obra sua textura e peculiaridades como rastro de sua existência
anterior. A artista resgata esta trama de nervuras que se
tornam veias incorporadas ao volume das formas por ela criadas.
Estas se apresentam em partes densas e fechadas em si como
elementos abstratos-concretos, formando um corpo negro acompanhado
de traços sutis que complementam e acentuam o seu todo. Como
a criar um desequilíbrio necessário, surgem ainda fendas e
cortes em seu contorno como em um processo de desmembramento
de sua massa. Este é o ponto de partida para obras mais recentes
em que as formas passam visivelmente por um processo de alongamento.
O resultado remete a uma paisagem surrealista habitada por
esparsas formas solitárias que se revezam no universo de claro
e escuro trazendo leveza e descontração à composição.
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Rosa
Esteves
Assume
na série atual intitulada Deusas as marcas e demais insígnias
conquistadas por sua pele ao usar o próprio corpo como matriz.
Antes de se imaginar a obra finalizada, tem-se aqui que levar
em consideração o processo de criação como um ritual, pois
o gesto de se ornamentar através da pintura remete à necessidades
extremas como de defesa ou até de acasalamento segundo códigos
de conduta existentes em todas as culturas. Seu torso passa
reconstruir monotipias singulares. Vermelho, preto e branco
em tons e densidade variados delimitam a nova existência.
Esta forma transposta ao papel, como consequência de uma performance,
será ainda demarcada por ornamentos geométricos. O resultado
pictórico em partes sobre fundo negro alude pelo jogo de transparências
ao resultado de um raio-x, conduzindo o olhar do expectador
a volumes, marcas e entranhas supostamente internos.
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Cássia
Gonçalves
Apresenta
nesta mostra as próprias matrizes de sua obra, que levam em
sí a presença literalmente profunda da artista. O incansável
gesto da ponta-seca cria a densa trama, resultante do gesto
viciado da artista incorporado ao suporte translúcido utilizado
- placas de acetato. Em seu trabalho predomina há muito tempo
formas geométricas. Porém nesta série de 45 obras, a única
forma geométrica em vigor é o quadrado do próprio suporte.
A superfície incorpora uma camada também pictórica pelo uso
da sanguínea, como a se desprender dos arranhões de sua crosta.
O conjunto exposto lado a lado forma em sua composição um
patchwork instigante pelas densas manchas vermelhas salientadas
pelo brilho e transparência do material usado.
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CORPOS
CRAVADOS
Na produção
contemporânea atual, percebe-se o distanciamento cada vez maior
entre o artista e seu trabalho, o excesso de intermediários ou recursos
de tecnologia avançada dominam o processo de produção. Independente
desta tendência, ou assim dizer-se evolução, há também uma resistência
latente respaldada no ato de fazer com as próprias mão. As artistas
Sandra Kaffka, Rosa Esteves e Cássia Gonçalves são testemunhas não
só desta perseverança, como também defensoras de uma das técnicas
primordiais que se mantém independente de qualquer modismo: a gravura.
A parceria não é inédita, pois expuseram juntas no ano passado na
Casa do Brasil em Madri. A paixão pela técnica traz uma exposição
do grupo para o escritório de arte Gravura Brasileira, reduto da
produção da gravura nacional ressaltando sua amplitude e versatilidade.
Apesar de unidas pela técnica, estas três artistas transpõem em
suas obras uma parcela do infinito universo da gravura ao utilizarem
matrizes e suportes distintos na produção artística. As obras expostas,
produzidas independentemente de instrumentos arrojados, transmitem
visivelmente no resultado artístico o sentimento e o gesto de suas
criadoras.
Tereza de Arruda,
Historiadora e crítica de arte
Berlim, maio de 2001
Apoio:
Canto Projetos e Construções Ltda.
Buffet Petit Comité
Reticências Editoração Eletrônica
Organização
: Gravura Brasileira gravurabrasileira@u-net.com.br
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