Jacqueline Aronis
1955-São Paulo ,Brazil
E-mail: jaronis@uol.com.br
1976 - B.A. in Fine Arts Fundação Armando Álvares Penteado São Paulo.
1977/1978 Etching and Engraving Postgraduate course at Slade School of Fine Arts University College London, England.
Lives in Lisbon Portugal, from 1988 to 1991; works at Atelier Diferença and studies specialization course "Gravura a água-forte" with Bartolomeu dos Santos.
1992/1995 - Teaches Etching as a guest artist at the Atelier Experimental de Gravura Francesc Domingo at the Museum of Contemporary Art São Paulo University College.
2002 Masters degree in Fine Arts, Escola de Comunicações e Artes University College São Paulo. Since 1999 teaches drawing in her own studio. Since 2002 teaches etching at the Atelier de Gravura em Metal das Oficinas Integradas do Centro Universitário Maria Antonia São Paulo University, with the direction of Evandro Carlos Jardim.
Exhibition: Gravura Jovem, MAC USP, 1981;
IX Bienal Internacional Valparaíso, Chile, 1989;
IX Mostra de Gravura Cidade de Curitiba, Paraná, 1990;
Anos 90, A Gravura Contínua, Centro Cultural São Paulo, 1994;
Contemporary Brazilian Prints, Haggar University Gallery, University of Dallas, Texas, U.S.A., 1997;
Brasil Reflexão 97 A Arte Contemporânea da Gravura, Museu Metropolitano de Arte de Curitiba, Paraná, 1997;
The 19th International Independante Exhibition of Prints in Kanagawa, Japão, 1997;
The 4th Sapporo International Print Biennale, Japão, 1998;
Tokyo International Mini-Print Triennial Tama Art University Museum, Tokyo, Japão, 1998;
São Paulo Gravura Hoje Mostra Rio Gravura FUNARTE, Rio de Janeiro, Brasil, 1999;
3rd Egyptian International Print Triennale National Centre of Fine Arts Giza, Egito, 2000;
Coletiva de Desenhos, Museu de Arte de Ribeirão Preto, S.P., Brasil, 2000;
International Print Triennial in Kanagawa 2001 Japão.
Solo Exhibitions: Contos Portugueses, Gravuras, Museu da Gravura Cidade de Curitiba, Paraná, 1994;
Axis Mvndi, Valu Oria Galeria de Arte, São Paulo, 1996,
Do Firmamento, Valu Oria Galeria de Arte, São Paulo, 1999,
Gravuras, Gravura Brasileira, São Paulo, 2001.
Tempo/Espaço Cordial, Gravuras Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, 2002.
Work in Permanent Collection: Instituto Itaú Cultural, São Paulo; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo; Museu da Gravura Cidade de Curitiba, Paraná; Portland Art Museum, Oregon, U.S.A.; Sapporo International Print Biennale, Japão; National Centre of Fine Arts, Giza, Egito.
Desde a invenção da prensa até o advento da Pop Art ,a gravura teve um papel importante na divulgação não apenas da literatura, mas também de obras de arte, popularizando-as e expandindo as possibilidades de acesso e consumo de imagens. A tradição no uso da prensa para criar e reproduzir trabalhos de arte possibilitou a artistas do século XX, o uso de uma variedade de técnicas e um amplo universo de escolhas. No entanto, talvez em decorrência da ganância tout court do mercado de arte e de um certo esnobismo da crítica, dos curadores e colecionadores, a gravura foi sempre tomada como uma prática menor, uma expressão paralela nas obras dos grandes mestres da Modernidade, apesar das magníficas realizações de artistas como Picasso, Miró e Beckmann entre tantos outros .
Os artistas da Pop Art descobriram na gravura não apenas uma técnica conveniente, mas um meio que realçava o sentido simbólico de seus trabalhos, produzindo múltiplos ajustados ao ideário do movimento e determinando o estilo de representação que lhe é característico. Embora distantes dos buris e goivas - instrumentos que privilegiam a mão, o gesto e a emoção no ato de gravar - os pops se concentraram nas técnicas industriais (litografia ,off-set ,silk-screen) como forma de desacreditar a presença do humano no trabalho de arte e criticar a natureza introvertida do Expressionismo Abstrato que os precedia no tempo. Contemplando o ambiente ao seu redor ,orientado pela economia de larga escala e pela ideologia do consumo, os pops emprestaram dos out-doors, dos rótulos ,das revistas, da propaganda, da comunicação visual o tema para seus trabalhos ,explicitando a soberania dos produtos industrializados e das representações geradas pelo mass-media. Os meios industriais de reprodução utilizados por eles asseguraram uma extraordinária coerência entre método e objetivo ,confirmando sua direta conexão com o grau de industrialização da sociedade de onde eles emergiam. De um lado, criaram objetos de arte que espelhavam a produção de não-objetos de arte pela sociedade. De outro, o modo de produção definiu o caráter essencial de uma era onde, embora banal em sua aparência, este mesmo objeto foi elevado a categoria de uma artefato estético.
No esteio destas transformações, a noção de gravura como meio expressivo, como linguagem, como conceito e, sobretudo, como modo de reprodução de imagens ,foi resgatada e instalada novamente no território das práticas artísticas contemporâneas, associada ou não aos processos manuais, industriais e tecnológicos. No Brasil, entretanto, a gravura tem outra história. Ela tem sido fundamental na criação e sustentação do circuito artístico local se não quisermos lembrar de que toda História da Arte que aprendemos foi através de reproduções em livros e slides. Desde os Modernistas muitas escolas e núcleos de formação de artistas se criaram em torno de ateliers de gravura ou contaram com a participação de gravadores, configurando um território específico e com tradição própria, ao contrário de outras linguagens que reivindicam sua filiação à arte internacional. Como observou Tadeu Chiarelli no catálogo A Gravura Paulista (1995), "a gravura em suas modalidades mais convencionais(...) conta muito. ...Pode-se dizer que um dos núcleos mais vitais da arte brasileira recente encontra-se justamente neste território, sobretudo, no território da jovem gravura paulista. ... (ela) continua investindo na imagem autoral ,na subjetividade , nos procedimentos centenários dos vários modos de gravar uma matriz e, na produção de alguns gravadores - pasmem!- ,na negação do próprio caráter de reprodução da imagem gravada, tido como inerente à gravura que eles tanto prezam ".
As gravuras de Jacqueline Aronis inscrevem-se neste quadro de negação da reprodutibilidade e seriação da imagem gravada. Mais: constituem-se numa estratégia estético-ideológica, contrária aos processos de popularização da imagem para afirmar o sujeito, o artista criador em sua viagem solitária e em desencantamento com o mundo ,onde o trabalho se configura como um esforço de transposição para outros espaços, outras paisagens, buscando significado e transcendência para seu gesto, para a sua existência. E ainda que o embate do trabalho com o real se desfaça de qualquer ilusão ou romantismo quanto as possibilidade de interferência e alteração do mundo, ele, em sua singularidade, propõe uma viagem pelo imaginário como possibilidade de alguma subjetividade, de emergência de um eu afirmativo da vida.
Produzidos como peças únicas ,mesmo que algumas vezes utilizando uma mesma matriz, os trabalhos de Aronis articulam-se como uma pesquisa em torno da construção de imagens e de objetos. Imagens que podem ser vistas como um atlas fabuloso, interpretações de cartas celestes, captação de luzes de estrelas caídas, paisagens sonhadas e nunca alcançadas fixadas sobre papel artesanal, elaborado a parir da reciclagem de fibras naturais e de livros já usados e gastos pelo tempo, elas se corporificam como palimpsestos de uma intensa vivência da matéria, da informação e da memória.
Entretanto , ao lado das muitas metáforas que o trabalho constrói ,afirma-se uma investigação sobre as possibilidades do meio expressivo. as vezes , gestos diretos , pulsionais , sobre a placa ; outras, exercícios de contenção e disciplina: ou ainda ,procedimentos e memórias emprestados de outras linguagens . Usando monotipias, pontas secas e águas-tintas impressas sobre papéis texturados, feitos para cada uma das imagens, o trabalho recorre a todas as qualidades manuais ,imaginativas e emotivas.
Mas em paralelo à investigação formal evidencia-se a grandeza e o idealismo do sentido da arte para Aronis: dentro de uma sensibilidade neo-romântica, seu trabalho participa, além do compromisso com a especificidade da linguagem, de um programa onde o ofício é o meio de construção de um sentido ético para ele. Sua estratégia revela que a verdade que a artista busca não reside na literalidade das coisas que representa, mas no reconhecimento da imaginação e da sua prática como meio para criar, nomear e acreditar em verdades artísticas.
Ivo Mesquita |